Feeds:
Posts
Comentários

Archive for the ‘Ana Corda’ Category

Episódio 4

Três ou quatro no carro, não me lembro ao certo. Rodávamos pelas estradas em perfeito estado, após passarmos alguns dias em praias nordestinas. Em busca de nossa próxima parada, uma cidade indiana, foram quilômetros contados. A Índia dentro do Brasil. Eu não sabia como aquilo era possível, mas, de fato, existia. “Pai, mas como pode?”, eu perguntava a todo instante.

Os pequenos meninos morenos com roupas rasgadas, e, logo à frente, a placa escrita em Hindi, eram avisos do que procurávamos há horas. Monumentos históricos, referências aos Deuses, vacas enfeitadas em desfile, mais meninos. É o pouco que recordo.

O que mais me marcou foi a descoberta da floresta colorida dentro daquela cidade indiana. Árvores repletas de folhas – e não flores -, amarelas, vermelhas, laranjas. Vistosas, enormes, quase ao alcance do céu. E em meio ao mundo de folhas, um lago e uma estátua dourada que remetia à Estátua da Liberdade. Eu, com minha pouca altura, nas pontas dos pés, tentava passar as mãos nas folhas e suas mil cores.

“Filha, olha quem está aqui!”, gritou meu pai. Em um lento movimento, virei meu corpo e chorei ao ver a surpresa: meus tios e minha avó. Ali, em minha frente, depois de tantos anos.  Das folhas para as pessoas, mudei o foco da lente da máquina. Vovó estava falante e sorria e pedia mais e mais fotografias.

________________________

Eu, Ana, acordei, sem despertador, sem nada. Só com aquela memória boa de um sonho que poderia ser verdade.

Anúncios

Read Full Post »

Episódio 3

Era bicho, não era gente. Bicho parecido com um Pokémon. “Temos que pegar, temos que pegar…” E as gentes pensavam que tinham mesmo que pegar. Armados e em helicópteros barulhentos, as gentes só queriam isso.

Bicho meio Pokémon, meio onça. Bicho que corria para se salvar das gentes. Bicho que era Ana. Ana que era bicho. Que saía pela floresta em busca de esconderijo, pois não sabia se defender, só correr, só se esconder. Atrás dos outros bichos, fugia do barulho das hélices e das pólvoras que se instauravam nos miolos alheios. Corria, corria, corria. Achou o buraco de uma árvore e ali ficou. O bicho dormiu. O bicho acordou, gente! O bicho acordou gente. Como num passe de mágica. Ninguém sabe, ninguém viu. Precisava sair dali e buscar a liberdade.

Com a ajuda dos macacos que se camuflavam nos troncos das árvores imperiais da floresta, bicho que virou gente, que sempre foi Ana, subiu rapidamente em uma dessas árvores e resolveu deitar em suas folhas longas e verdes. Por enquanto, como o dia ainda nem tinha raiado e as gentes ainda não levantavam de profundos sonos, Ana, surpresa e feliz por ter virado gente, mas gente boa, começou a assoviar uma tranquilizante melodia, encarnando uma das princesas dos desenhos animados da Disney.

Formigas, que habitavam aquela mesma folha em que Ana deitou-se, despertaram. Algumas formaram uma generosa platéia para ouvir o som afinado da voz de Ana. Outras muniram-se de mini-instrumentos musicais e foram orquestradas pelas leves mãos da pequena gente.

________________________________

E, ainda faltando cerca de dez minutos para a irritante música do despertador tocar, e sem ninguém precisar chamá-la e gritar seu nome, com um meio sorriso no rosto, Anacordou bem e de bem.

Read Full Post »

Episódio 2

Um balão amarelo e vermelho. Vermelho e amarelo e listrado. Ana tinha suas mãos amarradas a uma corda, como se estivesse guiando cavalos numa carroça, mas estava sendo puxada pelo balão e estava voando. Voando… flutuando em céus azuis.

Enquanto voava, Ana, delirantemente feliz, e seu balão, batiam em gigantes Ipês regados de flores brancas em plena primavera. E ali, bem abaixo de seus pés suspensos, conduzida pelos suaves ventos que reinavam, admirava com olhos apaixonados, as cores, as plumas e os brilhos dos vistosos carros alegóricos e das fantasias do carnaval que durava toda aquela estação.

A viagem que já se estendia por quatro horas, só teve fim quando o balão cruzou com uma nuvem pontuda, responsável por fazer um imenso furo em suas listras, caindo assim, vagarosamente, sobre a cabeça da menina, tampando sua visão.

Quando Ana conseguiu se livrar de todo o pano que a cobria, percebeu que ainda estava em céus azuis, mas não mais amarrada às cordas do balão, e sim, sem saber como, enroscada pelos pés em uma grossa e pesada gota de chuva que ameaçava cair e estragar a festa carnavalesca mais linda que a sua imaginação poderia criar.

______________________

“Acorda, Ana, acorda… já passa da hora, já passa da hora.”

Read Full Post »

Episódio 1

Música no volume mais alto. Professora e aluna posicionadas. Braço direito, braço esquerdo, gira o corpo, levanta a perna, perna pro alto, de novo, cabeça pra esquerda, cabeça pra direita, e assim a coreografia se formava. Passos de dança que só podiam ser feitos quando Ana, a aluna, saltasse de um avião. Isso mesmo. As duas treinavam em pé, sentadas, deitadas, até a coreografia se fixar na mente e Ana tomar coragem de cumprir com o seu dever: pular de um avião com mercadorias roubadas. Estranho? Mas era assim que ganhava a vida. Passaram-se dias de treinamento até que Ana conseguiu finalizar seu objetivo. Saltou e dançou ao mesmo tempo, entregou as mercadorias e…. pegou sua bicicleta, seu principal meio de transporte e seguiu pelas ruas esburacadas e sujas da cidade.

A bicicleta de Ana tinha cerca de 2 metros de altura e apenas uma roda. Lembrava até aquelas de circo. Porém, além de ter que se manter equilibrada em cima do veículo, que por sinal, era movido à gasolina, Ana prendia a coleira de seu cachorro no guidon direito e tinha que tomar todo o cuidado pra não atropelar o bichinho, que, na maioria das vezes, não conseguia acompanhar os movimentos da dona. Como era nova na cidade, ainda se confundia no caminho até sua casa, mas, incrivelmente, mesmo depois de voltas e mais voltas, encontrava a direção. No entanto, neste dia, entre subidas, descidas e inúmeras curvas, Ana se viu em uma estrada de barro, num bairro habitado somente por animais, e não por pessoas. Ela havia se perdido mais do que o normal e a gasolina da bicicleta, que não é eterna, terminou. Entre o verde, o cheiro do verde e os sons selvagens, sem nenhum posto de abastecimento por perto, ela…

… “Anaaaaaaaaa, acorda! ”

Read Full Post »